“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Mekiéééé António José Baião Caramba Raminhos?!

Sim, caro leitor. Sei o que está a pensar neste instante. Parvoíce de entrada, graçola fácil com o nome do seu comparsa, como quem anuncia num soquete dos anos 90 a chamada de Ramiro Carola Onofre, reformado, que nos liga de Carrazeda de Ansiães. Pois. Acontece que este é, juro pela alma do meu falecido cágado, o nome completo e verdadeiro do António. Já este vosso escriba é Silva. Luís Filipe da Silva Borges. A minha mãe é Cabral, o meu pai é Albuquerque. Podia ter um nome filha-da-mãe, escritório de advogados instantâneo, Albuquerque Cabral Borges & Associados, mas não. Silva. Foram ao Registo Civil após muito ponderar e foi isto que lhes pareceu bem. Muito grato. Suponho que sou fruto duma gravidez indesejada.

Mas para quê todo este relambório? Por vergonha. Receio. Pudor. Medo de te confessar, caro amigo, e ao leitor, cordato compincha, que este mês o Autohoje me confiou um Jaguar F-Pace. Pérolas a porcos, atribuir um carro destes a alguém que continua sem distinguir a cabeça da junta da junta da cabeça. Assim divaguei. Embora divagar se vá ao longe.

(pausa para o leitor me rogar pragas)

A propósito de pausa… foi no dito cujo, retumbante e afirmativo F-Pace, que enfrentei nos últimos tempos o caótico trânsito da capital – obra e graça de Medina, o presidente em quem ninguém votou. Mas dono e senhor dum mérito: acrescentou plurais ao que antes não passava de singulares. Exemplo: hora de ponta é agora Horas de Pontas. Horas, por motivos óbvios, porque como se não bastasse um indivíduo pagar parquímetros a um preço que dava para alimentar durante um mês duas famílias indianas, ainda tem de passar tempos infindos a tentar estacionar neste estaleiro que costumava dar pelo nome de Lisboa. E ‘de Pontas’, porque à hora de ponta se une a raiva até à ponta dos cabelos, a vontade indomável de ver o próprio autarca atravessar-se sorridente diante de nós numa qualquer passadeira e passar a calcetá-lo directamente via Jaguar.

Lisboa é hoje aquela moçoila que decide engalanar-se para sacar numa festa de Erasmus e depois acaba trocada (por um húngaro, checo, italiano) pela amiga mais simples e menos maquilhada. “Lisbon… did you like it?”, “I prefer Madrid”.

Recomendo vivamente que, em tua esposa engravidando de novo, recorram a uma parteira aí da região saloia. Porque, se vierem a correr para a Maternidade Alfredo da Costa, a Catarina ainda acaba a rebentar as águas algures nas 3 horas que vocês vão passar entre o Campo Grande e o Saldanha. Aumentando ainda mais os acidentes por causa do aquaplaning. Mas obrigado, Medina. Graças a ti já sei o que significa o “F” em F-Pace…

Luís Filipe BORGES

 

Caro Silva,

Desculpa desiludir-te, mas esse não é o meu nome! Não sei quem te disse isso... Falta o Fernandes. António José Baião Caramba Fernandes Raminhos. E sim, já ouvi milhentas vezes a piadola: “és Caramba? Caramba!”; “Oh António... Caramba pá!”.

Passei ao lado de uma grande carreira nas artes adivinhatórias. Bem podia ter um anúncio: Professor Caramba, espiritualista e cientista. Dotado de conhecimentos e poderes vários, ajuda a resolver problemas em menos de 6 dias. Raios! Em menos de dois se tiver muita pressa. Grandes problemas financeiros, saúde, amor e juntas da cabeça do motor. Era sucesso garantido. Tu estarias lá muitas vezes a resolver problemas da junta da cabeça.

Curiosamente, parecia que estava a adivinhar as obras na cidade de Lisboa, porque andei ao volante da Peugeot 508 RXH. Talvez um dos modelos mais bonitos e bem sucedidos dos últimos anos da Peugeot e que é coisa para andar em todos os terrenos. Como é que hei-de explicar... É uma carrinha familiar, mas vistosa, é ecológica (tem motor híbrido), mas potente. Gosta da estrada, mas dá-se bem nos buracos e na lama. Exemplo disso foi o facto de ter levado a Peugeot para a Serra da Estrela. OK, não havia neve, mas a caspa do meu tio deu um ar da sua graça, só não deu muito jeito para fazer sku no cucuruto do senhor. Depois levei a carrinha para Lisboa e até deu para brincar. Aliás, acho que interpretaste mal as acções do presidente Medina. Lisboa não está em obras, é um novo parque de diversões. Há mesmo quem diga que o próximo Dakar vai ser só em Lisboa. Com montes de malta a desistir logo na primeira etapa com descrições do género:

- “Eh pá, comecei bem, mas depois uma tampa de esgoto entrou-me nos rolamentos e rebentou o motor. Ainda assim tive mais sorte do que o meu companheiro de equipa que atropelou dois camelos”.

- “Dois camelos?!”

- “Quer dizer, eram duas pessoas, mas o modo como se comportavam mais pareciam dois camelos. A atravessar fora das passadeiras e a refilar com os condutores e isso.”

Acho que era uma boa aposta do município. Há todo um merchandising associado a isto. Desde tshirts “Lisboa-Dakar 2017”, autocolantes, edições de carros, tudo! Sim, neste momento, viver em Lisboa leva a conversas do género:

- Vives em Lisboa?

- Sim, sim. Comprei uma casa no Saldanha em 2015.

- Parabéns pá! E estás a gostar da casa?

- Não conheço, ainda não cheguei lá.

Até os hotéis podiam apostar em altas promoções do género: “Quartos a 0 euros! Reserve aqui e não paga nada... se conseguir cá chegar!” O melhor mesmo era em vez de carros, em Lisboa, só poderiam circular autocaravanas, porque mais vale viveres ali. E para que te apercebas da dificuldade, este texto foi escrito entre o Campo Pequeno e a Avenida da República. Quinhentos metros de pura felicidade. “Anda lá com isso pá!”.

António RAMINHOS

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